A partir de uma trajetória de diálogos, escutas e construção coletiva com produtores em diferentes regiões do país, o Vozes da Pecuária avança para uma nova etapa: transformar os desafios identificados no campo em agendas concretas de interlocução com governos, mercado e sociedade. a consolidação das agendas foi marcada por um encontro nacional, em Brasília, DF, no último mês.
A região de Marabá e Paragominas, chamada de território Amazônia Oriental Paraense, foi representada pelo pecuarista Samuel Aguiar Melo, embaixador local, e Mauro Lúcio Costa, pecuarista e membro do comitê gestor Vozes da Pecuária. Seu território representa 34.470 km2, com 1,68 milhões de cabeças de bovinos e um Valor Bruto da Produção Agropecuária (VPB) estimado em R$ 2,27 bilhões.
Para o território, entre as prioridades identificadas está a gestão orientada por indicadores; regularização fundiária, ambiental e sanitária ainda complexa; representação produtiva; rastreabilidade, maior acesso a exportação e conversão de valor da origem amazônica.
O encontro marcou a conclusão de uma etapa que começou há um ano, com o levantamento de demandas de pecuaristas. Foram rodas de conversa realizadas em sindicatos, propriedades e comitivas permitiram que os próprios pecuaristas trouxessem seus desafios, discutissem as causas e identificassem o que precisa avançar dentro do setor.
Uma agenda construída pelos produtores
O Vozes da Pecuária partiu da proposta de que os próprios pecuaristas sistematizassem suas demandas em uma metodologia comum que organizou as particularidades dos dados e diagnósticos sem tratar a pecuária brasileira como uma atividade homogênea. O projeto assumiu também o compromisso de compreender as realidades territoriais e, a partir delas, projetar a pecuária do futuro, identificando os principais desafios e entraves que precisam ser superados para que essa transformação aconteça.
Nesse exercício, uma constatação ganhou relevância: em grande parte dos territórios, os principais entraves à transformação da atividade estão associados a condicionantes não tecnológicas. Embora o acesso ao crédito, à assistência técnica e ao conhecimento seja fundamental, os diagnósticos revelaram que a adoção de tecnologias depende, muitas vezes, da superação de obstáculos estruturais e institucionais.
Entre esses obstáculos, a segurança jurídica relacionada às questões ambientais e fundiárias apareceu de forma recorrente. Os produtores relataram demora em processos, divergências de interpretação e situações nas quais notificações e embargos podem comprometer crédito e novos investimentos.
A infraestrutura e a mão de obra também se destacaram, com desafios que assumem diferentes características conforme o território. Uma demanda por infraestrutura, por exemplo, pode representar a necessidade de uma ponte para escoar a produção em determinada região e, em outra, a dificuldade para receber maquinário ou insumos necessários à recuperação de pastagens. Já os desafios relacionados à disponibilidade e à qualificação da mão de obra incluem a sucessão rural, que pode envolver tanto a decisão dos filhos de permanecer no negócio quanto a falta de escola, saúde e outros serviços que permitam às famílias continuar no campo.
Os embaixadores territoriais partem para uma fase de interlocução local com representantes de entidades, governos e empresas a partir de uma ampla reflexão sobre a realidade de quem produz e os desafios para a pecuária do futuro. A próxima etapa será priorizar as bandeiras de cada território e ampliar a interlocução com os atores que podem participar das soluções.
Nesta primeira fase, o Vozes da Pecuária reúne dez territórios presentes em oito estados, que somam cerca de 19,13 milhões de cabeças de bovinos em 640 mil km². A divisão territorial e a nomenclatura foram definidas pelo próprio movimento a partir das características e da vocação pecuária de cada região.
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