Geral SOCIOBIODIVERSIDADE
Parceria garante novos equipamentos e impulsiona a sociobiodiversidade do caranguejo no Nordeste do Pará
Entrega realizada pela Semas e empresas privadas beneficia 1,5 mil trabalhadores do setor
21/10/2026 17h58
Por: Redação Fonte: Secom Pará

O fortalecimento da cadeia produtiva do caranguejo e a valorização do trabalho de coletores e beneficiadoras ganharam um novo impulso em Maracanã, no Nordeste do Pará. Nesta segunda-feira (19), a Associação de Coletores e Beneficiadores de Caranguejo de Maracanã (ACBCM) recebeu equipamentos e materiais que vão contribuir para melhorar as condições de trabalho, estruturar o beneficiamento e ampliar as oportunidades de comercialização.

A iniciativa contou com a participação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) e a doação de equipamentos pelas empresas Dendê do Tauá S.A. e JJ Ambiental S.A., em articulação com instituições estaduais e municipais e organizações envolvidas no desenvolvimento sustentável da região.

Para Rosalina Modesto, presidente da associação, a entrega representa uma conquista importante para os trabalhadores que encontram no manguezal uma fonte de renda e sustento para suas famílias. “Isso aqui é minha vida e representa o sonho de toda a comunidade”, afirmou.

Entre os itens entregues estão equipamentos de proteção individual (EPIs), lavadora de alta pressão, mesas de inox, caixas plásticas, facas e tesouras de inox, seladora térmica, fogão industrial, freezer horizontal, caixa térmica, panelão industrial, aparelho de ar-condicionado e cadeira ergonômica. A estrutura deve contribuir para aprimorar as etapas de manipulação, higiene, conservação e armazenamento dos produtos, além de proporcionar melhores condições aos trabalhadores.

A ação reuniu representantes da Semas, da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater), da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), da Secretaria Municipal de Agricultura (Semagri), do movimento ESG Ekobé e da Diretoria de Pesca e Aquicultura.

Protagonismo feminino

Criada em 2007, a ACBCM surgiu a partir da mobilização de mulheres que buscavam reconhecimento pelo trabalho realizado na catação do caranguejo. Rosalina relembra que, durante uma reunião sobre o seguro-defeso, questionou por que as trabalhadoras que atuavam nessa atividade não eram contempladas da mesma forma que os homens pescadores. A orientação recebida foi criar uma associação para reivindicar seus direitos. Oito dias depois, a entidade estava formada.

“Eu trabalhei 18 anos só catando caranguejo. Criei meus filhos catando caranguejo”, contou Rosalina, ao recordar a própria trajetória e as dificuldades enfrentadas pelas trabalhadoras. Segundo ela, no início, as mulheres recebiam cerca de R$ 0,50 por quilo de caranguejo catado.
Ao longo dos anos, a associação ampliou sua atuação e passou a contribuir também para o acesso dos trabalhadores a direitos e serviços. Atualmente, de acordo com a presidente, a entidade reúne 1.500 associados ativos, dos quais 970 pescadores possuem Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e recebem o seguro-defeso.

A ACBCM também desenvolve ações sociais, como a distribuição de cestas básicas, kits de higiene bucal e kits para gestantes, além de iniciativas voltadas à saúde das comunidades. Sua atuação alcança 96 comunidades de Maracanã e outras dez de Santarém Novo, contribuindo para a organização dos trabalhadores e para a valorização dos conhecimentos tradicionais relacionados à atividade pesqueira.

Conforme dados apresentados pela entidade, 50% dos integrantes são mulheres, 46% são homens e 4% pertencem ao público LGBTQPNA+, demonstrando a diversidade de pessoas envolvidas na cadeia produtiva do caranguejo.

O secretário-adjunto de Gestão e Regularidade Ambiental da Semas, Rodolpho Zahluth Bastos, destacou a importância da articulação institucional para fortalecer iniciativas que conciliam geração de renda, valorização cultural e conservação ambiental.

“Nosso objetivo é contribuir para que iniciativas como a ACBCM avancem na economia de sociobiodiversidade e tenham melhores condições para desenvolver suas atividades. O fortalecimento da estrutura produtiva, aliado à preservação de conhecimentos transmitidos entre gerações, pode ampliar as oportunidades de geração de renda e contribuir para o desenvolvimento sustentável das comunidades”, afirmou.

A secretária municipal de Meio Ambiente de Maracanã, Josiane Carrera, também ressaltou a importância da parceria entre as instituições para o desenvolvimento local. “É um momento muito importante, porque estamos mais uma vez recebendo a Secretaria de Estado dentro do nosso município para fazer parte de entregas que trazem benefícios à sociedade. Esses equipamentos vão ajudar muito e impulsionar o trabalho dessas mulheres e desses homens”, destacou.

Economia circular azul

Além de fortalecer o beneficiamento do caranguejo, a associação também participa de iniciativas voltadas ao reaproveitamento de resíduos da atividade, em parceria com a Fundação Ekobé. Cascas de caranguejo e caroços de açaí, por exemplo, podem ser utilizados no desenvolvimento de alternativas produtivas que aproveitam materiais que, de outra forma, seriam descartados.

Segundo Rodolpho Zahluth Bastos, o trabalho inclui a produção de biocalcário a partir desses resíduos, com potencial de utilização na agricultura e na jardinagem. “Os resíduos de caranguejo e de açaí dos manguezais, como cascas e caroços, são transformados em biocalcário, insumo agrícola rico em quitina e nutrientes naturais, usado na agricultura e jardinagem. Esses insumos são entregues a agricultores familiares para utilização na regeneração do solo, gerando economia circular em ciclo contínuo de reaproveitamento, na qual a circularidade dos resíduos promove o fomento de novas economias com a devolução de nutrientes à terra”, explicou o secretário-adjunto.

A iniciativa demonstra como o aproveitamento de resíduos pode contribuir para diversificar as atividades econômicas, estimular práticas sustentáveis e fortalecer a conexão entre a produção local e a conservação dos recursos naturais.

Reconhecimento e valorização

O trabalho desenvolvido pela ACBCM também foi avaliado no âmbito do Selo Amazônia Mulher. O relatório técnico sobre o empreendimento apontou 70,8% de conformidade geral e recomendou a concessão do selo, considerando a relevância da associação para a valorização dos saberes tradicionais, a organização comunitária, a geração de renda e o protagonismo feminino na cadeia produtiva do caranguejo.

Com a chegada dos novos equipamentos, a associação passa a contar com melhores condições para desenvolver suas atividades e buscar novas oportunidades de comercialização. A iniciativa reforça a importância de apoiar organizações comunitárias que mantêm viva a tradição do trabalho nos manguezais e contribuem para o desenvolvimento sustentável do Pará.

Texto: Jamile Leão/ Semas