
A região oeste do Pará foi às urnas no dia 4 de outubro e fez o que se espera de um eleitorado numeroso: votou muito. O que sai da apuração, porém, é um paradoxo. Há deputados eleitos com votos do Baixo Amazonas e da Transamazônica, mas há uma dúvida legítima sobre quem, de fato, vai cobrar do novo governo as demandas da região.
O novo governador e a bancada que o espera
Dr. Daniel (Podemos) foi eleito já no primeiro turno, com mais de 51% dos votos válidos, superando a governadora Hana Ghassan (MDB). Médico, ele foi prefeito de Ananindeua por dois mandatos e já presidiu a Assembleia Legislativa. O resultado interrompe o ciclo do grupo do ex-governador Helder Barbalho, que comandava o estado desde 2019.
A Assembleia que vai recebê-lo tem outra correlação de forças. O MDB elegeu 13 deputados estaduais e seis federais, as maiores bancadas do Pará nas duas Casas. Ou seja, o governador entra com a vitória majoritária, mas o maior bloco legislativo vem do grupo derrotado. Nesse cenário de disputa em Belém, a pergunta para o oeste é simples: quem vai levar à mesa as obras, a saúde, a logística e a regularização fundiária da região, e quem vai apenas acompanhar o jogo de poder da capital?
Santarém: votos de casa, representação em dúvida
Santarém elegeu três nomes com domicílio eleitoral no município: Airton Faleiro (PT), reeleito deputado federal, e, para a Alepa, JK do Povão (PL) e Maria do Carmo (PT). Faleiro teve 90.181 votos; JK do Povão, ex-vereador, estreia com 69.719; Maria do Carmo foi reeleita com 50.558.
Em números, a cidade parece bem servida. Na prática, a pergunta que circula nos bastidores é outra: o mandato federal de Airton Faleiro tem sido percebido como uma voz santarena em Brasília? A atuação do parlamentar, as emendas destinadas ao município e a presença dele na região são pontos que o eleitor tem o direito de medir, e que esta redação vai levantar. Representar não é apenas ser votado, é prestar contas do que se faz com o voto.
Oriximiná: três nomes, uma pergunta
Oriximiná também comemora a quantidade. O deputado federal Júnior Ferrari (PSD), reeleito, nasceu na cidade. Ele foi o quarto federal mais votado do estado, com 213.645 votos. Há ainda os nomes da cidade na Assembleia Ângelo Ferrari e Renata Fonseca. O ponto crítico, porém, é o mesmo: um filho da terra que há anos mora em Belém representa o município na rotina, nas demandas do interior, nas distâncias do Trombetas, ou é um voto de origem que vira mandato de capital?
Xingu e Transamazônica: milhares de votos sem cadeira
O caso mais sensível é o do corredor Xingu-Transamazônica. Eraldo Pimenta (MDB), que buscava o quarto mandato, tinha sido eleito em 2022 com 51.986 votos e construiu a carreira na defesa da Transamazônica, da BR-230, da BR-163 e do Xingu. Em 2026, e ele não conseguiu a reeleição. A região perde o parlamentar que tinha a pauta no sobrenome.
O efeito é duplo. Primeiro, milhares de votos do Xingu e da Transamazônica se somam, pelo sistema proporcional, a candidaturas de fora, ajudando a eleger quem muitas vezes nunca pisou na região ou só apareceu na campanha. Segundo, a região entra no novo governo sem um deputado estadual que a tenha como base única e declarada.
O que está em jogo
O novo governador não vai enfrentar uma cobrança regionalizada. Não há uma bancada do oeste articulada, com agenda comum, que condicione apoio ao governo a obras como a pavimentação das rodovias, hospitais regionais, energia e conectividade. O que existe são mandatos individuais, espalhados entre partidos que ora estarão na base, ora na oposição.
Esse é o diagnóstico incômodo desta eleição: o oeste do Pará tem peso eleitoral para eleger muitos, mas ainda não tem organização política para ser ouvido como bloco. Enquanto o voto for pulverizado e a representação for medida pela origem, e não pela presença e pela entrega, o governador de turno poderá governar para o oeste sem ter de responder ao oeste.
Cabe agora ao eleitor, à imprensa e às entidades da região acompanhar de perto o que cada eleito fará com o mandato, e cobrar.
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