
Localizado em uma Área de Proteção Ambiental (APA) e abrigando mais de 400 pesquisadores, conectados a empresas e laboratórios, o Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, em Belém, há 15 anos alia o conhecimento tradicional da Amazônia a novas tecnologias, num ecossistema de inovação e negócios que valoriza insumos, saberes, modos de vida e práticas ancestrais, mobilizando recursos para fomentar caminhos para uma economia criativa e sustentável.
Maior floresta tropical do mundo, a Amazônia detém cerca de 10% de toda a biodiversidade do planeta, distribuída por cerca de 7 milhões de quilômetros quadrados de extensão. De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), 80% desse território é composto por florestas que abrigam recursos naturais de valor inestimável para o futuro da humanidade e com potencial para o desenvolvimento econômico e sustentável da região, a partir de suas mais de 50 mil espécies de plantas vasculares, como a castanheira, a andiroba e o açaizeiro.
Biocurativos com óleos da floresta
É inspirado por esse potencial que o Laboratório de Óleos da Amazônia (LOA), residente do PCT, tem desenvolvido estudos sobre óleos, seus derivados e, principalmente, sobre o aproveitamento de resíduos vegetais, como os da andiroba e da castanha, com aplicações que vão desde o setor de saúde até o de dermocosméticos.
“Desenvolvemos biocurativos que realmente funcionam, já testados in vivo (e não apenas in vitro), inclusive para uso veterinário. Conseguimos formular ou pré-formular hidratantes e cremes faciais, e trabalhamos em conjunto com outros professores da universidade para avaliar a parte nutricional desses óleos vegetais e sua capacidade de produção para cápsulas, como a criação de uma cápsula rica em um determinado agrupamento de ácidos graxos, voltada para a área de alimentos funcionais”, explica Emerson Costa, professor da Universidade Federal do Pará e coordenador do Laboratório de Óleos da Amazônia.
O trabalho desenvolvido pelo Laboratório de Óleos da Amazônia tem forte conexão com os saberes tradicionais, gerando capacitação, emprego e renda para as comunidades que detêm esses conhecimentos.
“No laboratório, temos o cuidado de trabalhar tanto com grandes empresas quanto com pequenas cooperativas, pequenos arranjos produtivos ou até mesmo com iniciativas que ainda estão em estágio embrionário. Isso ajuda cooperativas incipientes e sem muita formação a realizar análises e a colocar seus produtos no mercado com uma certa certificação”, destaca o coordenador.
Papel e carvão de açaí
Quem também tem estudado o potencial dos bioprodutos amazônicos é a professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), Lina Bufalino. Associada ao ecossistema de inovação do PCT Guamá, a pesquisadora concentra seus estudos no aproveitamento do resíduo do açaí para a geração de dois produtos principais: biocarvões e ecopapéis.
“Para otimizar esse processo, aproveitamos as características anatômicas distintas do resíduo: as fibras superficiais, conhecidas como o 'cabelinho' do caroço, possuem propriedades para a fabricação dos ecopapéis, enquanto as sementes internas globulares são perfeitas para a produção de biocarvões”.
A pesquisa científica desenvolvida no ecossistema do parque tecnológico paraense é só o ponto de partida para um reconhecimento e uma valorização cada vez maior da cadeia produtiva do açaí, que conecta saberes e fortalece a bioeconomia e o desenvolvimento sustentável da Amazônia.
“A pesquisa científica é fundamental para definir os métodos de pré-processamento. O fluxo avança para a realização de oficinas de capacitação e o mapeamento de compradores. Existe um mercado comprador real e interessado, inclusive no cenário internacional. Com a demanda validada, o passo final é a articulação de financiamento junto a governos e bancos, para viabilizar a criação de pequenos polos comunitários”.
Potencial amazônico na economia sustentável
A região Norte, como um todo, possui um potencial gigante para o desenvolvimento de bioativos voltados às indústrias.
“Temos tanta riqueza que poderíamos passar 100 anos pesquisando e desenvolvendo soluções, e passaríamos todo esse tempo descobrindo novos fármacos, novos bioativos e novos produtos aplicáveis ao mercado industrial”, destaca Raul Carvalho, coordenador do Laboratório de Tecnologia Supercrítica (Labtecs), localizado no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá.
O Labtecs trabalha com a tecnologia supercrítica, método sustentável que usa a pressurização em substituição aos solventes químicos. A aplicação dessa tecnologia no PCT foca na verticalização da produção a partir de insumos da biodiversidade, valorizando, de forma sustentável, o potencial de plantas medicinais e frutos da Amazônia. Um exemplo é a extração de bioativos com alto valor agregado, para o desenvolvimento de produtos específicos nas áreas de alimentos, cosméticos e farmacêutica.
Principal insumo da cadeia produtiva paraense, o açaí tem aumentado seu potencial econômico para além do fruto in natura. A partir da aplicação de novas tecnologias e de estudos desenvolvidos em laboratórios, o fruto da palmeira Euterpe oleracea ganha novas aplicações no mercado. Além do biocarvão e do eco papéis, nos laboratórios do Parque foram desenvolvidos o azeite de açaí, que se caracteriza por ser rico em vitamina E, vitamina A e ácidos graxos insaturados; além da antocianina, um fenol de valor comercial gigantesco no mercado internacional; e e da manose, um bioativo utilizado no tratamento de inflamações no rim e no trato urinário, presente no caroço do açaí.
Mas o potencial amazônico também é acompanhado de sua complexidade. Por isso, o professor Raul precisou desenvolver um equipamento próprio.
“Todos os equipamentos existentes nessa área são importados de países como Estados Unidos, Alemanha, França e China, o que torna a compra muito cara, porque não adquirimos apenas os materiais, mas sim um pacote tecnológico fechado. Então resolvemos desenvolver o nosso próprio equipamento, comprando peças no Brasil e adaptando o sistema para as nossas condições climáticas”, detalha o pesquisador.
“Essa tecnologia não funciona como um eletrodoméstico comum. Ela exige várias adaptações e possui muitas variáveis de processo que precisam ser ajustadas ao clima da nossa região. O maquinário montado dentro do parque tecnológico foi totalmente projetado para as condições da Amazônia. Ele possui uma especificidade gigantesca, que talvez as pessoas da nossa própria região não conheçam, mas que é altamente compreendida e valorizada nos congressos internacionais de fluido supercrítico”, completa Raul.
Fomento ao ecossistema de inovação e investimentos no setor de ciência e tecnologia
Há 15 anos, o Parque de Ciência e Tecnologia Guamá tem atuado como um hub de ciência, tecnologia e novos negócios. Primeiro parque tecnológico da Amazônia, o PCT abriga mais de 100 iniciativas vinculadas ao seu ecossistema, que reúne centros e laboratórios de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), startups, empresas e instituições públicas e privadas que conectam saberes tradicionais à ciência moderna, resultando em produtos e serviços da Amazônia para o mundo.
Com a meta de aualificar recursos da Amazônia, impulsionar negócios e transformar conhecimento em inovação, apenas nos últimos cinco anos o governo do Pará já investiu mais de R$ 40 milhões no PCT Guamá, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior, Profissional e Tecnológica (Sectet). Esses recursos são vitais para manter o ambiente de inovação em operação.
Hoje as atividades do parque já envolvem mais de 100 ativos de propriedade intelectual, 240 serviços prestados e 130 projetos de P&D que mobilizam, em média, 550 milhões de reais por ano.
“O parque conta com serviços técnicos especializados e suporte técnico, com saberes focados nas demandas locais. Dispomos também de iniciativas e programas de empreendedorismo para auxiliar na organização e no posicionamento de novos negócios frente ao mercado, além de uma rede de pesquisadores conectados às universidades para o desenvolvimento de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)”, explica Aline Casimiro, gerente de inovação e propriedade intelectual da Fundação Guamá.
Instituição de Ciência e Tecnologia responsável pela gestão do Parque, a Fundação Guamá tem atuado para que a ciência produzida na Amazônia seja convertida em soluções para os desafios do cotidiano, a partir do registro de propriedade, do fomento ao ecossistema e da transferência de tecnologia.
“Muitas vezes, os pesquisadores percebem que uma solução desenvolvida em bancada ou em formato de protótipo possui viabilidade mercadológica. É nesse momento que ocorre a transferência de tecnologia para o nascimento de novas empresas”, destaca Aline.
O PCT Guamá favorece um ecossistema no qual as empresas vivenciam experiências de inovação, novas ideias e rupturas de pensamento, o que as leva a expandir seu escopo de atuação para o modelo de startups.
“Em 2025, seis novas spin-offs nasceram no Parque. Essa dinâmica promove duas grandes transformações: converte o conhecimento científico em empreendimentos de mercado ou de impacto socioambiental e impulsiona a inovação nas empresas já estabelecidas”, ressalta a gestora.
Texto: Kelvyn Gomes- PCT GUAMÁ
Mín. 23° Máx. 34°