
A Secretaria de Estado de Turismo (Setur) realizou, neste sábado (10), a 39ª edição do Concurso de Embarcações – Prêmio Carlos Rocque, durante o Círio Fluvial. A iniciativa reconhece as embarcações que participam da procissão das águas e se destacam pela ornamentação e pelo cumprimento dos critérios estabelecidos no regulamento. Cinco jurados avaliaram os participantes com base em quesitos como ornamentação religiosa, postura e disciplina da tripulação, pontualidade, cumprimento do percurso e segurança da navegação.
Idealizada em 1986 pelo jornalista, historiador e então presidente da Companhia Paraense de Turismo (Paratur), Carlos Rocque, a Romaria das Águas surgiu para homenagear a Rainha da Amazônia Nossa Senhora de Nazaré e ainda fomentar o turismo religioso. Desde então, tornou-se uma das manifestações mais marcantes da quadra nazarena, sendo hoje a quinta mais antiga do circuito de romarias. Em 2026, a expectativa é que cerca de 200 embarcações participem da procissão, que percorre um trajeto de 10 milhas náuticas pela Baía do Guajará, saindo do trapiche de Icoaraci até a escadinha do cais do porto, em Belém.
Para a diretora de produtos turísticos da Setur, Alessandra Pamplona, o Prêmio Carlos Rocque vai muito além de reconhecer a beleza das embarcações. ‘Ele celebra a fé e a identidade de um povo que tem nos rios parte da sua história. São embarcações que, durante o ano inteiro, transportam pessoas, alimentos, frutos da nossa terra e movimentam a vida na Amazônia. Mas, quando chega o Círio, elas ganham outra missão: conduzir a devoção de milhares de romeiros, muitos deles vindos das nossas ilhas, que esperam o ano inteiro por esse encontro com Nossa Senhora de Nazaré”, avalia.
O Círio de Nazaré é uma das principais vitrines turísticas da região Norte para o mundo, projetando Belém como um importante destino de turismo religioso e cultural. Segundo o titular da secretaria de turismo, Emílio Bernardo Ramos, a festividade valoriza a riqueza cultural da Amazônia e demonstra que a diversidade de suas manifestações, crenças e tradições é tão expressiva quanto a exuberância de sua biodiversidade. “Ao reconhecer e valorizar essa tradição durante o Círio Fluvial, o Governo do Pará também fomenta o turismo religioso, fortalece a nossa cultura e mostra que, na Amazônia, os rios não são apenas caminhos. São também caminhos de fé”, afirma o secretário.
Júri técnico valoriza fé, cultura e identidade amazônica
A avaliação das embarcações ficou a cargo de cinco profissionais com experiências em diferentes áreas do conhecimento e da comunicação: Aldrin Figueiredo, professor doutor em História e docente da Faculdade de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA); Sônia Vieira, professora doutora em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia pela UFPA; Cláudio Guimarães, radialista e comunicador esportivo; Ageíse Navarro, jornalista e bacharel em Direito; e Antônio José de Souza, estilista, integrante da Guarda de Nossa Senhora de Nazaré e bordador de mantos.
O professor Aldrin avalia que, como historiador que se dedica aos estudos culturais amazônicos, é sempre uma honra participar de eventos de responsabilidade dentro das festividades nazarenas.
“Ser jurado do Prêmio Carlos Rocque significa partilhar dessa guarda da memória, da criatividade e da fé do povo paraense. O prêmio homenageia o jornalista e historiador Carlos Rocque, um dos grandes pesquisadores da história do Pará. Avaliar a Melhor Embarcação não é apenas julgar estética, adereços ou tamanho do barco. Significa ler a narrativa visual que os ribeirinhos, empresas e devotos constroem sobre as águas da Baía do Guajará”, conta.
Ele também fala sobre sua relação com Nossa Senhora de Nazaré, afirmando que falar dela é como falar da própria certidão de nascimento de todo paraense.
“Minha história com a Nossa Senhora de Nazaré se mistura à saudade de minha mãe, que perdi quando tinha 16 anos. Antes de qualquer coisa, Nossa Senhora de Nazaré representa pra mim exatamente isso mãe. Neste círio, vou pedir pela cura de um familiar muito querido e que, estando como graça alcançada, a maior delas é a própria oportunidade de vivenciar e registrar essa festa vivo e com saúde a cada ano. Na perspectiva da fé misturada à história, cada Círio superado, cada pesquisa concluída e cada momento de comunhão com o povo em torno da Santa é um milagre renovado. É a graça de ver a identidade de um povo se manter forte e resistente através dos séculos”, disse.
Com destacada atuação nos campos da história social da arte, patrimônio histórico e intelectualidade amazônica, o professor Aldrin avalia a importância do Círio Fluvial para o paraense.
“É uma das romarias mais ricas visualmente. Sob a ótica histórica, ele reafirma a nossa condição anfíbia. O paraense é um ser das águas. Trazer a Imagem Peregrina para navegar no Rio Guamá e na Baía do Guajará, cercada por centenas de embarcações (desde grandes navios a pequenas rabetas), é a consagração do modo de vida amazônico. O rio deixa de ser apenas uma via de transporte e passa a ser um templo sagrado a céu aberto.
O radialista Carlos Guimarães afirma ser uma alegria ímpar participar como jurado da premiação, até por ter conhecido e convivido com Carlos Rocque, idealizador da Romaria Fluvial. “Círio é a maior festa religiosa do mundo. Círio se vive. É também um encontro e reencontro de povos e familiares”.
Ele conta sua história de fé com Nossa Senhora. “Em 1973 tive um sério acidente automobilístico, próximo de Capanema, fiquei em coma uma semana, 25 dias no CTI, com orações e pedidos de familiares e meus, me recuperei e assisti o Círio da sacada do apartamento que moro e desde então acompanhei várias vezes em agradecimento”, afirma.
Já a jornalista Ageíse Navarro participa pela primeira vez do Círio Fluvial e como jurada pretende analisar principalmente a criatividade, além das embarcações que respeitem o meio ambiente e cumpram todos os critérios de segurança durante o trajeto. “Será um momento emocionante acompanhar de perto todo o empenho de cada decorador e os donos das embarcações. Momentos como esses além de incentivar o turismo também renova a nossa fé’, afirma.
A história dela com a padroeira dos paraenses foi fortalecida em Santarém, onde morou 37 anos.
“Em 2017 meu irmão estava em tratamento oncológico aqui em Belém e sempre quando eu viajava pra cá, eu visitava a Basílica pedindo a cura dele, e assim a devoção aumentou. Infelizmente ele faleceu, mas também considero como uma graça, ele descansou. No mesmo ano do diagnóstico dele fui chamada para integrar a equipe de visita da imagem Peregrina de Nazaré, em Santarém. Além da devoção veio a responsabilidade de servir bem de pertinho, e foram anos servindo na comunicação, nas coberturas jornalísticas em tv e rádio, falando dessa fé do povo paraense e dos milhões de devotos de Nazinha”, conta.
A professora Sônia Vieira recebeu com muita alegria e responsabilidade o convite para ser jurada do Prêmio Carlos Rocque. Como antropóloga, professora e pesquisadora das manifestações religiosas populares, considera a participação uma oportunidade de contribuir para o reconhecimento da riqueza cultural e religiosa do nosso povo.
“O Círio de Nazaré é muito mais do que uma celebração religiosa, é um acontecimento que mobiliza memórias, afetos, histórias e diferentes formas de pertencimento. Minha expectativa é contribuir com um olhar sensível à diversidade dessas expressões, valorizando especialmente as pessoas que, muitas vezes de maneira anônima, ajudam a construir e preservar essa tradição. Acredito que reconhecer essas manifestações é também valorizar a história e a identidade do povo paraense”, lembra.
A professora conta que a relação com Nossa Senhora de Nazaré está profundamente ligada à própria história como mulher amazônida, às memórias familiares e à experiência de viver em uma sociedade na qual a Nazinha está presente nas casas, nas ruas, nas conversas e nas relações de solidariedade.
“Tenho muito respeito pelas histórias de graças alcançadas, pois compreendo que a fé representa, para muitas pessoas, esperança, força e uma maneira de enfrentar as dificuldades da existência. O Círio sempre me faz pensar na importância dos encontros, da partilha e dos vínculos que construímos ao longo da vida. Nossa Senhora de Nazaré faz parte da nossa memória coletiva e, independentemente das diferentes maneiras de viver a religiosidade, sua presença possui um significado afetivo e cultural muito profundo para o povo paraense”, relata.
Há mais de duas décadas, Sônia é uma das principais pesquisadoras brasileiras dedicadas aos estudos da devoção de São Benedito de Palermo, com destaque para as conexões entre Brasil, Amazônia e Itália. A pesquisadora analisa aproximações muito significativas entre essas duas manifestações religiosas, especialmente na maneira como mobilizam comunidades, preservam memórias e fortalecem identidades.
“Embora possuam particularidades de cada manifestação e trajetórias históricas distintas, ambas revelam o protagonismo popular na construção das tradições religiosas. Em Bragança, por exemplo, a Marujada de São Benedito evidencia a presença histórica das populações negras e suas contribuições para a formação cultural do Pará, enquanto o Círio de Nazaré reúne diferentes segmentos da sociedade em torno de uma devoção mariana profundamente enraizada na identidade regional. As procissões, as promessas, as comidas, as músicas e os encontros familiares são elementos que aproximam essas experiências e demonstram como a religiosidade ultrapassa os espaços institucionais e participa da própria organização da vida social”, pontua. Ela destaca também que “costumo compreender essas manifestações como cartografias da devoção, nas quais os percursos religiosos revelam histórias, ancestralidades e territorialidades. Para mim, estudar o Círio de Nazaré e a devoção a São Benedito é também estudar o próprio Pará”.
Regulamento e premiação
Os inscritos concorrem em duas categorias: Categoria A - Embarcações regionais, que inclui cascos de madeira ou aço com dois ou até três conveses e normalmente transportam passageiros em rede para diversas localidades da região amazônica. Categoria B - Outros Tipos de Embarcações, composta por ferry boats, balsas, empurradores, iates, lanchas, veleiros, pesqueiro, entre outros.
Serão premiados os três primeiros colocados com o Troféu Carlos Rocque em ambas as categorias, além dos seus decoradores.
A entrega do Prêmio Carlos Rocque aos vencedores, será realizada no dia 22 de outubro, no Armazém do Tempo, no Mangal da Garças.
Texto: Sâmia Maffra-Ascom Setur
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