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Projeto monitora clima em florestas secundárias da Amazônia

O trabalho vai gerar dados inéditos sobre o papel da restauração florestal na Amazônia para a mitigação das mudanças climáticas.

16/06/2026 às 11h26
Por: Redação Fonte: Texto: Natalia Mello
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Projeto monitora clima em florestas secundárias da Amazônia

Em Capitão Poço, no Pará, torre de alta tecnologia coleta dados pioneiros sobre a regeneração da floresta em área de agricultor familiar.

Uma torre de 20 metros de altura instalada no nordeste do Pará marca o início do primeiro monitoramento climático em florestas secundárias (capoeiras) da Amazónia. O estudo inédito acompanha o processo de regeneração natural em uma área de 56 hectares em Capitão Poço e mobiliza uma rede de instituições científicas, integrantes do Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazónia (Centro Capoeira), coordenado pela Embrapa.

O trabalho vai gerar dados sobre como as florestas em crescimento auxiliam na mitigação dos impactos climáticos globais e é conduzido na propriedade de Manuel Geraldo de Carvalho, o seu Duquinha. O agricultor de 93 anos é o responsável pela recuperação e proteção dessa área há três décadas. Os sensores de solo e atmosfera vão fornecer dados contínuos para avaliar como as capoeiras — áreas que brotam espontaneamente após desmatamentos ou uso agrícola — atuam como o sistema de cicatrização natural do bioma.

O legado de "Seu Duquinha": a base do laboratório vivo

Para compreender a origem desse território científico, é necessário resgatar a história do guardião da área onde a torre de 20 metros está instalada: seu Duquinha. Sua ligação com a região começou muito antes de o município de Capitão Poço ser emancipado. Ainda na infância, deixou a vizinha Ourém para acompanhar o pai e os tios em uma jornada de caça na comunidade de Nova Colônia. Ao decidirem se mudar definitivamente para a mata, os pioneiros lotearam os terrenos e instalaram suas famílias no local.

Antes de se tornar uma referência em conservação, seu Duquinha foi alfabetizado por uma escola radiofônica, concluiu o ensino médio e trabalhou como escrivão de polícia. O plano de transformar a antiga área de roçado em um refúgio verde ganhou um propósito definitivo há pouco mais de três décadas, por incentivo de um dos seus 12 filhos, que o estimulou a direcionar a sabedoria prática da terra para a conservação.

Com o plantio manual de cerca de 30 mil mudas de espécies nativas e frutíferas — como castanheiras, jatobás, piquiás e bacurizeiros —, o agricultor restaurou uma antiga nascente que secava regularmente. “A mata ciliar estava muito degradada, então fomos fazendo a restauração. Hoje já está com um bom tempo que o riachinho não seca", recorda.

Ao seu lado, a esposa Luiza Bezerra, companheira há 66 anos, orgulha-se do oásis familiar criado contra a corrente do desmatamento regional: “Me sinto feliz demais, porque hoje em dia para se achar um lugar como esse é raro”. A regeneração trouxe de volta a fauna local, como cutias, veados e bandos de macacos-bugio (guaribas), animais cuja forte vocalização funciona como bioindicador de que a floresta está saudável.

Seu Duquinha e a esposa Luiza Bezerra. Foto: Márcio Nagano.

Da vivência prática à ecologia científica

O exemplo do casal moldou o destino da neta, a bióloga Laína Carvalho, de 33 anos. Criada como filha pelos avós, ela cresceu na propriedade (Reserva Ecológica São Geraldo Magela) e transformou as árvores da sua infância em objeto de estudo. Atualmente doutoranda em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), Laína dedica-se a decifrar a matemática da regeneração através da ecologia.

Sua pesquisa busca quantificar a capacidade da floresta de produzir e armazenar sua própria energia nas capoeiras durante extremos climáticos, como secas severas ou chuvas concentradas. “A planta recebe energia pela fotossíntese. Parte dela usa para crescer e se recuperar, e a energia que sobra é distribuída para o tronco, folhas e raízes. Meu trabalho é entender como essa distribuição acontece ao longo dos anos. Analiso desde capoeiras jovens até mais antigas, de 15 até 60 anos, incluindo a floresta primária intacta, onde o Centro Capoeira instalou, recentemente, outra torre de monitoramento”, explica a pesquisadora.

Para medir essa engrenagem viva, a cientista não olha apenas para o topo da torre, mas para o que cai no chão. A metodologia envolve coletar e analisar a "serrapilheira", uma camada de folhas, galhos e frutos que cobre o solo, além de calcular até mesmo a perda de energia provocada por insetos que se alimentam das folhas (a herbivoria).

Duas torres, duas florestas

Os dados gerados pela estrutura na área do seu Duquinha têm como aliada outra torre de monitoramento. Com 40 metros de altura, o outro equipamento foi instalado em um fragmento de 500 hectares de floresta primária intacta que pertence a um sítio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuária e da Pesca (Sedap) em Capitão Poço.

Enquanto a estrutura de 20 metros monitora a capoeira, a de 40 metros monitora a floresta nativa intocada, servindo como base de comparação científica. Os dois pontos receberão sensores microclimáticos em diferentes alturas para medir, em tempo real, variáveis como a umidade e a temperatura da superfície, do ar e do solo.

A torre de 40 metros que hoje se sobrepõe à copa das árvores nasceu de um projeto coordenado pelo pesquisador Fernando Elias da Silva, do Museu Paraense Emílio Goeldi, em colaboração com o pesquisador e professor Divino Silvério, da Universidade Federal Rural da Amazônia. O trabalho, financiado com recursos do Instituto Serrapilheira, foi inicialmente desenhado de forma independente e ganhou escala ao ser integrado ao grande guarda-chuva que hoje é o Centro Capoeira.

De acordo com Fernando, o projeto defende a compreensão das florestas secundárias - aquelas áreas que, após sofrerem desmatamento para dar lugar a pastagens ou à agricultura, acabaram abandonadas e iniciaram um processo de regeneração natural. O pesquisador explica que essas capoeiras prestam um serviço ambiental inestimável para o planeta, atuando diretamente na recuperação da biodiversidade local e oferecendo serviços ecossistêmicos cruciais.

A torre instalada na floresta mede umidade e temperatura da superfície, do ar e do solo. Foto: Márcio Nagano.

Laboratório vivo

A escolha de Capitão Poço como laboratório vivo desse estudo não foi por acaso: o Nordeste Paraense é uma região de colonização antiga, marcada por sucessivos ciclos de uso da terra e desmatamento crônico. Embora a Amazônia já conte com outras estruturas de monitoramento em florestas primárias, a grande inovação do projeto está na base instalada na área secundária. “Plataformas em florestas maduras existem várias na região, mas para a capoeira, esta é a primeira”, destaca Fernando.

Para que a comparação científica seja exata, as duas bases precisam operar simultaneamente por, no mínimo, um ano. É na estrutura maior, de 40 metros (localizada na floresta primária), que ficam concentrados pelo menos 10 sensores de alta precisão, enquanto a menor monitora a capoeira. “Precisamos dessas medidas tanto na estação seca quanto na chuvosa em ambas as áreas. O clima é extremamente volátil e sofre muita alteração ao longo do ano, por isso precisamos de 12 meses consecutivos de dados nos dois ambientes para ter um recorte seguro de comparação”, explica Fernando.

Dados sobre o clima na Amazônia

Se o foco de Fernando Elias está na contabilidade do carbono e na diversidade de plantas, o do pesquisador e professor Divino Silvério está na atmosfera: ele quer entender a velocidade com que uma capoeira recupera a capacidade original que a floresta tem de moderar o clima. Afinal, a regeneração natural via florestas secundárias é um dos meios de restauração ecológica mais eficientes e de menor custo que existem no planeta, mas a ciência ainda carece de respostas sobre o tempo que essa ferida leva para cicatrizar do ponto de vista térmico.

"Sabemos que há uma diferença considerável na forma como uma floresta primária e uma área de pastagem geram o ciclo da água e da energia. O que estamos tentando entender com as capoeiras é como ocorre a recuperação desta capacidade de produzir vapor de água e manter a temperatura local amena", aponta Divino.

Os sensores de alta tecnologia instalados nas duas estruturas vão gerar, pela primeira vez na região, dados reais e contínuos de campo que servirão para calibrar os modelos de sensoriamento remoto (dados de satélite) utilizados para estimar o clima na Amazônia. “As torres de monitoramento do clima local atendem um dos objetivos principais do Centro Capoeira que é entender como diferentes estratégias de restauração florestal contribuem para recuperar os serviços ecossistêmicos”, afirma a pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental e coordenadora do Centro Capoeira.

A união entre a física do clima e a ecologia florestal procura responder qual componente do ecossistema se recupera mais rapidamente no relógio do tempo. Contudo, o consenso entre os cientistas permanece firme: embora as florestas secundárias sejam aliadas indispensáveis na absorção de carbono, elas não substituem a necessidade urgente de proteger os santuários primários que restam. 

Centro Capoeira

O Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazônia, batizado de Capoeira, reúne mais de 180 pesquisadores de 33 instituições do Brasil e do , exterior, entre universidades, órgãos governamentais, ONGs, empresas privadas e coletivos locais. Coordenado pela Embrapa, o centro é dedicado a apoiar a  restauração florestal na Amazônia, integrando instituições, laboratórios e grupos de pesquisa em estudos socioeconômicos, ecológicos e bioculturais na região. 

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